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Chama Sherlock Holmes: polícia baiana só consegue solucionar 22% dos crimes de morte


José Carlos Teixeira é jornalista e especialista em marketing político, mídia, comportamento eleitoral e opinião pública

“Não, não é preciso ser Sherlock Pra adivinhar qual é o toque Que eu vou lhe dar” (Elementar, meu caro Watson, samba de Nonato Buzar e Paulinho Tapajós) 


Sherlock Holmes e seu inseparável companheiro Dr. Watson vão acampar e armam sua barraca sob as estrelas, longe da agitada vida londrina. De madrugada, Holmes acorda seu acompanhante e diz: – Watson, olhe para as estrelas e diga-me o que pode deduzir.


Depois de perscrutar vagarosamente o firmamento, Watson responde: – Vejo milhões de astros e se alguns poucos daqueles são planetas, é bem provável que haja alguns como a Terra. E se há alguns planetas como a Terra, é bem possível que neles haja também vida.


– Watson, seu idiota, alguém roubou nossa barraca! – grita um impaciente Sherlock.


A historinha remete, em tom anedótico, à famosa capacidade investigativa e dedutiva do detetive criado pelo escritor britânico Conan Doyle (1859 – 1930), cujas aventuras se espalham em quatro romances e 56 contos, publicados em quase todo o mundo. Até hoje, 135 anos depois da edição da primeira obra (Um Estudo em Vermelho, de 1887), os livros de Sherlock Holmes constituem leitura obrigatória e prazerosa para quem se interessa pela literatura policial, seja um simples leitor ou mesmo um profissional da área.


Pena que Sherlock seja apenas uma personagem do universo ficcional. No mundo real, alguém como ele… Está bem, meu caro leitor, menos: alguém quase como ele está fazendo falta na Bahia, onde a imensa maioria dos crimes de morte permanece insolúvel – e, consequentemente, ficam impunes. Isso em um estado que segue liderando o índice nacional de homicídios, com 1.326 assassinatos nos três primeiros meses deste ano.


Segundo a última edição da pesquisa Onde Mora a Impunidade, realizada pelo Instituto Sou da Paz, com base em dados de 2018, a polícia baiana deixa de resolver 78% dos homicídios que ocorrem no Estado. Ou seja, em cada grupo de 100 homicídios ocorridos no território baiano, apenas 22 são elucidados, metade da média brasileira, que é 44.


Com 78% de homicídios não solucionados, a Bahia ocupa a antepenúltima posição no ranking nacional, à frente apenas do Rio de Janeiro (86%) e do Paraná (88%). Os estados que apresentam menores taxas de crimes de morte não solucionados são Mato Grosso do Sul (11%) e Santa Catarina (17%).


A situação fica ainda mais vexatória quando se leva em conta a propaganda do governo baiano sobre os elevados investimentos feitos na área pela atual gestão. Nunca se investiu tanto em segurança pública, diz a publicidade oficial.


O que nos leva à seguinte conclusão: se mesmo com tanto investimento a polícia baiana não consegue solucionar mais que 22% dos crimes de morte ocorridos no Estado, isso significa, em princípio, que os recursos estão sendo mal aplicados. Elementar, meu caro Watson!


(A propósito, amável leitora, ao contrário do que se diz, Sherlock Holmes nunca falou essa frase. Ela não consta em nenhuma das 60 obras escritas por Conan Doyle sobre o famoso detetive. A frase ficou famosa após ser introduzida no roteiro de uma série de filmes sobre o detetive produzida por Hollywood).


José Carlos Teixeira  zecarlosteixeira@uol.com.br é jornalista e especialista em marketing político, mídia, comportamento eleitoral e opinião pública 


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

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