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Deserdados, Órfãos da Terra


Fabiana Franco é microempresária e camaçariense

Até a década de 1970 éramos uma simples e pacata cidade: tranqüila, harmoniosa com suas tradições e costumes. Nossos antepassados viviam em sua grande maioria da agricultura, da pesca e da criação de animais.


O dito desenvolvimento começa com a grande e devastadora implantação do Polo Petroquímico, quando o município passa a sofrer fortes ataques. A implantação do maior complexo planejado da América Latina ocorreu sobre um dos maiores e mais importantes aqüíferos mundiais. De lá pra cá, Camaçari nunca mais foi a mesma. Começa aí a saga dos explorados x exploradores.


Com a vinda do Pólo chegaram os trabalhadores.


Quando era criança ouvia de um amigo a história de que ele tinha saído de Catú de Abrantes para morar na casa de uma tia em Camaçari, pois o Pólo “tava fichando”. Segundo ele, todo mundo era contratado para colocar os piquetes para a construção, “os empreiteiros caçavam gente nas ruas”. Essa história foi se espalhando e chegando os “peões” vindos do interior do Estado. Muitos cortiços passaram a ser construídos para alugar aos imigrantes, bem como os casebres no entorno do Pólo, e assim se deu a ocupação desordenada da cidade, sem nenhum planejamento e preocupação com o futuro não muito distante.


O Grande problema, ainda hoje enfrentado nesse Município, é a falta de responsabilidade e compromisso social por parte daqueles que vêm aqui explorar. A Camaçari de ontem reflete a Camaçari tosca de hoje, ou seja, com grandes corporações que se instalam sem ao menos se preocupar com o impacto na vizinhança por elas provocada.


Pensem em um Município que na década de 1970 recebeu um complexo industrial com possibilidade de crescimento e que não se preocupou com a cidade? E os Gestores: Municipal, Estadual e Federal? Quem são eles e onde estavam e estão? Qual é o papel das instituições públicas?


Recentemente um empreendimento foi instalado em uma área de proteção permanente que mudou completamente a realidade e o cotidiano, impactando diretamente a vida de uma comunidade. Um Termo de Ajuste e Conduta (TAC) foi assinado pelo Ministério Público Estadual, instituição essa, que deveria estar ao lado da coletividade. No entanto, pasmem! Vocês acreditam que esse TAC foi celebrado entre o MP, Gestão Municipal e Empresa Privada e ninguém foi ouvido? Audiências Públicas não foram realizadas, estudos de impacto na vizinhança não foram apresentados. Nada, absolutamente NADA. O Promotor de Urbanismo e Meio Ambiente deveria atuar pelo bem coletivo e advogou por interesses alheios a vontade popular.


E aonde chegamos? Empresas estão partindo e nós ficamos com seus passivos ambientais, que também são sociais. O que será dessa multidão de desempregados? Será que eles se juntarão à massa de desalentados? A atual gestão formada por sua maioria daqueles que outrora ocuparam espaços em governos conservadores e antipopulares lançou recentemente uma campanha para atrair empresas para ocupar o cemitério de galpões abandonados e realizar a doação de mais áreas públicas, em um modelo outra vez, fadado ao fracasso, já que essas empresas após período de isenções de impostos dão adeus e vão garimpar em outras freguesias, sem responsabilidade e compromisso, sugam, exploram e partem.


E onde fica o bem estar dos munícipes, os órfãos da terra? Continuam a ver escorrer, como nosso minério extraído ilegalmente, ser derretido ao vento que sopra e espalha a areia?


A participação popular sempre foi temida por várias instâncias. Imaginem se todos os munícipes cobrassem o bem estar da coletividade? Certamente nenhum promotor advogaria em favor de interesses particulares, renegando a último plano os benefícios da coletividade. É preciso se perguntar até quando aguentaremos tantas empresas poluidoras, ver os nossos minérios saqueados, o direito de ir e vir obstruídos por praças de pedágios, condomínios de luxo fechando o acesso às praias, áreas públicas doadas à particulares, concessões de serviços públicos aos grupelhos, negociatas escusas de áreas de interesses públicos.


Redescobrir, Redesenhar e Ressignificar é uma das tarefas mais árduas e desafiadoras para atual e próximas gerações. Num contexto político marcado pela fragilidade das relações e incertezas aliadas ao servicialismo, a falta de sentimento de pertencimento e ausência de memória afetiva é um caldeirão fácil de dominação.


Sair da condição de cidadão passivo, ludibriado por pseudo-representações, é a forma mais dura e eficaz de sobrevivência. E sobreviver em uma cidade sem decência institucional será ainda possível? Essas mais de quatro décadas em nada ensinou Camaçari. Continuamos com a “dor de perceber, que apesar de termos feito tudo, que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”, já dizia Elis Regina naquela famosa canção.


Continuaremos a sofrer calados e desmobilizados enquanto em salas frias decidem-se o futuro de nosso Município? Até quando interesse de grupos econômicos irão se sobrepor aos da maioria?


Aguentaremos calados a ausência de transporte público digno, decente? Perderemos nosso direito fundamental do bem viver? O que sobrou para os cidadãos Camaçarienses e o que sobrará? Até quando seremos os sempre deserdados, órfãos de terra?


Fabiana Franco fabianadacruzfranco@gmail.com é microempresária, camaçariense caiçara, pesquisadora social e apaixonada por Camaçari


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

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