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Aprender, depois do leite derramando


Sócrates Magno Torres é camaçariense, educador e cientista social

Durante a última corrida eleitoral, em Camaçari, por algumas vezes falei sobre a possibilidade de uma empresa como a Ford resolver encerrar as atividades e causar uma grande perda de postos de trabalho, receita. Usava sempre esse exemplo como algo catastrófico, uma vez que falava de um complexo automotivo, e não apenas uma empresa isolada que fecharia as portas, em nossa cidade. Algumas pessoas interpretavam como um pessimismo delirante. Mas trazia sempre essa questão, justamente porque a nossa cidade precisa diversificar as matrizes econômicas e queria ilustrar essa necessidade.


Mas essa citação não era em toda, metafórica. O histórico, tanto da Ford quanto de outras multinacionais, é de um tipo de exploração predatória de mão de obra, incentivos fiscais, meio ambiente, além de apostarem muito mais no capital especulatório, em detrimento do produtivo, eram sinais. A financeirização do capital traz no seu bojo a possibilidade de criação de bancos corporativos, como o Banco Ford, que apostaria muito mais no “rentismo”, à manutenção de unidades de produção imensas, milhões em mão de obra, questões trabalhistas e todos os penduricalhos que uma empresa de grande porte necessita para funcionar.


Acontece que a somatória de fatores externos, tendências do mercado, crises econômicas, pandemia reforçam essa possibilidade. Mas se associado a tudo isso, ainda temos um governo federal que não transmite confiabilidade, segurança jurídica, estabilidade institucional e democrática, tem corrupção oficializada, uma massa de pessoas irracionais que legitimam esse perfil de governante no poder, então a empresa se sente a vontade para levar a cabo sua decisão de encerrar suas atividades no país. Até as reações do Presidente da República à notícia, apenas confirmam a inépcia do mandatário.


O que nos resta é lamentar e sermos solidários a quem esteve nessa linha de montagem dando sangue, suor e lágrimas por essa empresa que está instalada no Brasil, desde 1919, mas que em Camaçari não chegava a duas décadas. Tempo parco para a produção de uma unidade de fabricação que consumiu tantos investimentos. Muitas famílias de pessoas que conheço desde criança estão agora sem prumo, sem rumo, atônitos, em um momento da história em quem estar empregado em uma grande empresa é um privilégio, em tempos tão sombrios. Serão milhares de pessoas que engrossarão as fileiras de desempregados e sem perspectiva de futuro.


O que nos resta é aprender com essa lição. Uma multinacional que aumentou o investimento nos nosso vizinhos Uruguai e Argentina, antes de anunciarem o fechamento de suas fábricas no Brasil, pois sente mais confiança nos hermanos que tratam a política e a gestão pública de forma séria. Isso deve nos ensinar, como trabalhadores, cidadãos comuns e sobretudo, enquanto eleitores, que não estamos desconectados do mundo. Que não podemos mais acolher o discurso de ódio, polarizações, discursos fáceis para influencia nosso voto. Precisamos nos sentir representados por quem luta por direitos e não, para retirá-los prometendo empregos, condições. Essa é a farsa do neoliberalismo na sua pior face.


Agora, vamos aguardar os próximos episódios. Se há possibilidade de utilização de todo o parque industrial para instalação de uma nova montadora ou o destino será a criação de uma cidade fantasma naquele local. O fato é que não podemos abrir mão de aproveitar todo o potencial da nossa cidade para criarmos fontes de emprego e renda de forma sustentada, descentralizada, com forte participação popular, agricultura familiar, turismo e gradualmente fazer uma transição para uma economia mais limpa e sem riscos de tantas surpresas negativas.


Sócrates Magno Torres socratesri@yahoo.com.br é camaçariense, educador e cientista social


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor

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