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Os 4 séculos de história de Santo Antônio do Rio Jacuípe e São Bento de Monte Gordo


Diego Copque é professor, historiador, pesquisador e autor do livro em edição Do Joanes ao Jacuípe, uma história de muitas querelas, tensões e disputas locais

Monte Gordo é o segundo maior distrito em extensão territorial do município de Camaçari, na Bahia, com 292 quilômetros quadrados. Só é menor que a  sede do município, com 358 quilômetros quadrados somado aos 184 quilômetros quadrados da área do Polo Industrial. De acordo com dados da Prefeitura, o distrito de Abrantes tem 133 quilômetros quadrados de área territorial e Monte Gordo tem uma população estimada em 29 mil pessoas. Seu território engloba povoações que têm a peculiaridade de manter viva suas designações indígenas que receberam dos povos originários desde os tempos pré-coloniais.


O povoado de Barra do Jacuípe, localizado a sudeste da Estrada do Coco, está situado às margens do Rio Jacuípe, cuja palavra de origem tupi, traduzida para o português, significa “rio dos jacus”, um tipo de ave galinácea que habitava a região; Guarajuba, que significa “garça dourada” ou “garça amarela”; Itacimirim, que outrora era grafado como Tassimirim, significa “pequena fileira de pedras”; Genipabu, Rio dos Jenipapos; e finalmente Barra do Pojuca, que quer dizer “fonte de água podre” ou “água não potável”.


Além das suas belezas naturais, a região abriga importantes sítios arqueológicos desde o Rio Joanes até o rio Pojuca. No que tange à região do Rio Jacuípe, três sítios arqueológicos foram denominados de Jacuípe I, II e III. Os sítios foram pesquisados e registrados por Luis Fernando Erig Lima no Projeto de Diagnóstico Arqueológico Interativo (Porto Alegre, 2014, p. 31-34).


O primeiro Jacuípe I trata-se de um sítio multicomponencial, pré-colonial e histórico localizado na margem esquerda do Rio Jacuípe, com área total de 1.950 metros quadrados,65 metros de comprimentos e 30 metros de largura, no qual foram identificados vestígios líticos lascados e concentrações de material cerâmico. O segundo Jacuípe II é um sítio arqueológico pré-colonial da tradição Aratu, também localizado na margem esquerda do Jacuípe, com área total de 3.000 metros quadrados, 50 metros de comprimento e 60 metros de largura, onde foram identificadas concentrações de material cerâmico. O terceiro é um sítio cerâmico de tradição Aratu, localizado a 200metrosdo Córrego da Corma, com área total de 5.600 metros quadrados, 800 metrosde comprimento e 70metros de largura. Nesse sítio foram identificados material cerâmico e artefatos líticos lascados.


Esses sítios arqueológicos acusam a presença na região no período pré-colonial de povos nômades caçadores cujos nomes étnicos não são conhecidos que ocuparam a região por milhares de anos. Seguidos dos povos da cultura Aratu que aqui estiveram presentes por cerca de 2 mil anos, e finalmente os índios tupinambás que tinham como característica a caça, pesca e a agricultura de subsistência, que substituíram os povos de cultura Aratu após expulsá-los da região.


A tradição Aratu provém de uma nação indígena denominada Aratu por se desconhecer seu nome acredita-se que sejam oriundos da região do Vale do Paraíba entre as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, uma região formada pelas duas capitais. Sua origem na Bahia refere-se há mais de 2 mil anos, eles utilizavam material lítico lascado para produzir ferramentas de corte e perfuração.


Além desses três sítios arqueológicos em Barra do Jacuípe temos os sítios denominados de Sonrisal I e Sonrisal II caracterizados como pré-coloniais da tradição tupi-guarani, sistema regional Tupinambá. Numa área hoje conhecida como Rio Sonrial, o Sítio Sonrisal possui 60 metros de comprimento e 40 metros de largura, estando localizado a 188 metros do Rio Sonrisal, onde foram identificadas estruturas de combustão, concentrações de material cerâmico e artefatos líticos lascados. O Sítio Sonrisal II possui uma área de 4.800 metros quadrados, 80metros de comprimento e 60metrosde largura localizado a 300  metros do rio, onde foram identificadas estruturas de combustão, concentrações de material cerâmico e artefatos líticos polidos.


A partir do processo de colonização, o distrito tem origem em dois importantes núcleos de povoação e não nos portos de pescadores de Guarajuba e Itacimirim, como se acredita a partir do senso comum. Ele surge após os índios tupinambás da região terem sido subjugados pelos colonizadores e pela fundação do Aldeamento de Santo Antonio da Ressaca e da capela de Santo Antonio da Barra do Rio Jacuípe e, posteriormente, a de São Bento de Monte Gordo.


A missão jesuíta foi fundada em meados do século XVI quando, possivelmente, por concessão de Garcia D`Ávila, que aforou a sesmaria do Conde da Castanheira que tinha início após o Aldeamento de Santo Antônio de Rembé (Arembepe), os padres da Companhia de Jesus fundaram, nas margens do Rio Jacuípe, o aldeamento indígena denominado de Santo Antônio da Ressaca. Naquele momento foi erguida uma igreja de palha e madeira, pois para uma missão jesuíta funcionar era preciso no mínimo de uma capela. O referido aldeamento recebeu essa designação por causa da ressaca que o mar produzia na barra do Rio Jacuípe, conforme o Dicionario Geographico Historico e Descriptivo do Imperio do Brasil (Paris, 1845, Vol. I, p. 515) e o Almanak Laemmert (Rio de Janeiro, 1909, ed. 066, p. C7).


No início do século XVII, por volta do ano de 1600, Garcia D`Ávila fundou a capela de São Bento do Monte Gordo que distava uma légua da capela de Santo Antônio do Rio Jacuípe. Além de fundador,ele era o mantenedor das duas capelas entre outras que construiu.


Não podemos negar que importantes fatos históricos ocorreram no Litoral Norte da Bahia, principalmente nas povoações situadas no entorno da quadricentenária Vila de Abrantes, que situa o município de Camaçari no contexto da história do Brasil desde o período colonial.


É importante para Camaçari o reconhecimento e reposicionamento da data de sua fundação, já historiada em outro artigo (Confira). Esse importante e necessário trabalho passa pelo Conselho Municipal de Cultura do Camaçari (CMCC). É necessário que as autoridades políticas que foram recentemente eleitas, e o Conselho, em especial as cadeiras de Patrimônio Cultural  Material e imaterial, representada por Táta Ricardo Tavares, e de Artes Visuais e Artesanato, representada pelo artista plástico Deo Senna, estejam comprometidas e engajadas para que não possam deixar de atentar para as inúmeras possibilidades de novos estudos arqueológicos no sítio de Camaçari.


É imprescindível que essas peças, recolhidas em nossos sítios arqueológicos e hoje guardadas em Salvador e Mata de São João, voltem para Camaçari e até integrem o museu que será inaugurado no município.


Essa ação de resgate traz em seu bojo um novo conceito da história local e toda a sua importância para a história de Camaçari, sua cultura, com reflexos diretos na formação de nossos jovens, com ampliação do sentimento de pertencimento e seus reflexos no estímulo e fortalecimento da atividade  turística.


Diego de Jesus Copque  diegokopke@gmail.com é professor, historiador e pesquisador da História de Camaçari desde 2001. É autor do livro em edição Do Joanes ao Jacuípe, uma história de muitas querelas, tensões e disputas locais.

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