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Vale usou explosivos em Brumadinho antes do acidente


Acidente no dia 25 de janeiro já deixou 157 mortes oficiais

A Vale obteve autorização do governo de Minas Gerais para um projeto de expansão das minas do Córrego do Feijão, onde ocorreu o desastre, e de Jangada, a pouco mais de um mês antes da tragédia provocada pelo rompimento de uma barragem em Brumadinho (MG). Até o momento, acidente  do dia 25 de janeiro já conta 157 mortes oficiais e 165 pessoas desaparecidas.


Mesmo autorizada  pelo governo do estado, as obras previstas contrariavam algumas recomendações de segurança do relatório da consultora Tüv Süd, segundo engenheiros ouvidos pelo portal G1. Elaborado em julho de 2018 a pedido da própria Vale, o laudo da companhia alemã atestou a estabilidade da estrutura, mas detectou problemas no sistema de drenagem e fez ressalvas – a estabilidade do alteamento estava no limite de segurança das normas brasileiras. 


A Vale não informou se já havia iniciado as obras, mas confirmou que realizou detonações nas minas de Jangada e Feijão, sem dizer até quando elas foram feitas.


O estudo recomendou à mineradora ações que aumentassem a segurança e evitassem a liquefação, fenômeno verificado quando um material rígido passa a se comportar como fluido e uma das possíveis causas do rompimento da barragem em Brumadinho, que deixou 157 mortos e 182 desaparecidos.


As intervenções aumentariam a capacidade produtiva em quase 70%, passando dos atuais 10,6 milhões de toneladas de minério de ferro por ano para 17 milhões. Com isso, "a vida útil do empreendimento seria prolongada até 2032”, diz o parecer da Semad sobre o processo de licenciamento.


Professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), em Minas Gerais, o engenheiro Carlos Martinez afirmou que as obras previstas na expansão das minas afetariam a segurança da barragem. "É uma aprovação que colocava a barragem em risco, e a Semad deu. Os técnicos não deveriam ter dado, e a Vale não deveria ter pedido", disse.


Para isso, estava prevista a remoção mecânica por retroescavadeira na Barragem I, seguida por empilhamento e transporte. O projeto também cita explosões no Complexo Paraopeba. "Estão previstos desmontes por explosivos na mina de Jangada e o carregamento e transporte do minério e estéril por máquinas e equipamentos que podem gerar impactos de acústica e vibração”, diz o parecer da Semad (veja outros impactos abaixo).


Professor de engenharia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio e ex-presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), Alberto Sayão concorda que detonações em áreas vizinhas das minas, assim como movimentações de caminhões, poderiam funcionar como gatilho para a liquefação. "Num ambiente de mina de ferro, os caminhões são muito grandes, muito pesados. E, quando estão carregados com as pedras que são tiradas da mina, ele [o terreno] vibra, por isso que eles [autores do relatório] pediram para evitar", explica Sayão. "São caminhões enormes, que fazem uma trepidação similar a um sismo de baixa magnitude."


Com data de 20 de novembro, um parecer da Superintendência de Projetos Prioritários (SUPPRI) – atrelada à Semad – recomenda a autorização da licença. O documento diz que a Vale formalizou a obtenção do pedido da licença em agosto de 2015. O empreendimento licenciado compreendia uma série de novas intervenções para ampliação das atividades no Complexo Paraopeba. 


O projeto de licenciamento requerido pela Vale envolvia três licenças: Licença Prévia;Licença de Instalação do projeto de expansão da mina do Córrego do Feijão;e Licença de Operação. As três foram aprovadas em 11 de dezembro de 2018. O período do licenciamento é de 10 anos. A câmara de Atividades Minerárias, que aprovou o pacote de licenças, é formada por representantes do poder público e da sociedade civil.


No dia da aprovação, havia nove pessoas presentes – o único voto contrário partiu da ambientalista Maria Teresa Corujo, a Teca, do Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas (Fonasc-CBH). Para ela, cada licença deveria ser aprovada separadamente. "Nunca poderia ter sido as três licenças de uma vez", disse, acrescentando que o processo teve "uma série de atropelos grave".


Teca afirmou ao G1 que a câmara não havia sido informada quanto às recomendações de segurança da Tüv Süd. "Nunca tivemos acesso a esse relatório. No processo de licenciamento, não são colocados os documentos que atestam a estabilidade. Nos pareceres técnicos da Semad, só foi informado que, em relação, à estabilidade está tudo garantido pelo auditor".


Mesmo sem saber que a estabilidade da barragem estava no limite da segurança, Teca se opôs às obras, por considerar que a ampliação das atividades representava risco ao meio ambiente. Ela chegou a pedir três vezes que o licenciamento fosse retirado da pauta. De acordo com a ativista, a câmara teve pouco tempo hábil para analisá-lo.


Em seus pedidos de vista, Teca chamou atenção para o ponto que prevê a derrubada de 13,15 hectares de vegetação nativa em Área de Proteção Permanente (APP), o que, segundo ela, corresponde a 18 campos de futebol do tamanho do Mineirão.


Para a ativista, o processo de licenciamento é peça-chave para mostrar como funciona o "modus operandi da mineração em Minas Gerais". Em sua avaliação, as licenças são apenas um efeito burocrático ("de cartório"), sem que de fato haja uma análise de monitoramento e controle ambiental e social.

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