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Jolivaldo Freitas


Barra 69. Não vi, não dancei aquela música alegre



A lua estava cheia e sua atração gravitacional fazia com que a maré, parecendo até nestes dias
de hoje em que vários balneários baianos estão sendo devastados pelas ondas, subisse tanto
que dava para pegar jacaré na praia do Mont Serrat, que acho o melhor, mais bonito e telúrico
lugar da Cidade da Bahia. Claro, paramos para ver e ouvir a chegada dos astronautas, pisando
no solo lunar.


Como esquecer a imagem na TV em preto e branco. Imagem cuspida, chovida, cheias de
pingos, ampla de chuviscos que pareciam uma máscara, uma gaze sobre a imagem que vinha
do espaço e que causava certo receio, suspense, dramatização. Eu, meus amigos Marçal
Miranda, Mário Cabé, Zal do Carmo, Marivaldo (Sansão), Joselito Bispo (Jerrim) João Maia
(João-nariz-de-quibe), Maria da Conceição (Tete Maria), Zafira Miranda e mais que não me
vem à cabeça olhando fissurados a tela da TV Colorado. Havia uma certa apreensão:


Surgiriam seres espaciais? Estávamos influenciados pela série Jornada nas Estrelas e Os
Invasores. Essa era a grande espera. Haveria alguma surpresa na lua? E dentre todos nossos
questionamentos vinham as garantias científicas de leituras que hoje seriam consideradas
fakes como aquela que garantia que as emissões de raios do sol e outros desconhecidos vindos
do espaço profundo afetariam a saúde dos astronautas.


Era certo que eles ficariam loucos, pois ninguém permaneceria sã depois de pisar na lua e
voltar para a mesmice no planeta Terra. E os olhos fixos na Colorado procuravam descobrir
como era a lua de verdade e a imagem teimava em sumir por segundos, virar borrões tudo ao
vivo e até hoje ouço os ruídos, as estáticas dos astronautas falando, como se estivessem com a cabeça dentro de uma lata ou estivessem brincando de telefone sem fio. Sansão sabia imitar
certinho o inglês falado na lata pelos astronautas. E lá se vão 50 anos e ainda olho a lua
ouvindo o som que vem de lá. Ruído de moribundo.


E nesse clima todo a Bahia pegava fogo, mas éramos muito jovens para entender, dar bola ou
saber direito o que estava acontecendo politicamente por aqui. Excetuando-se uma ameaça ou
outra da polícia por causa dos nossos cabelos longos ou Black Power, roupas diferentes,
sandálias e atitudes dissonantes com a sociedade careta, o resto passava longe e foi quando
Caetano e Gil se preparavam para ir embora, para o exílio na Inglaterra, que decidiram fazer o
show Barra 69 no Teatro Castro Alves. A barra referia-se a uma gíria que queria dizer situação.
E a barra era pesada com o temível secretário de Segurança Púbica Luiz Arthur de Carvalho
(que vim entrevistar já quando repórter anos depois) mandando prender e arrebentar.


Cabeludo não podia. Cabeludo com guitarra então era o Cão comendo manga em sua visão.


E perguntei, ontem, ao meu velho amigo Marçal Miranda (que não liga, não manda sinais de
fumaça e sempre tem uma boa desculpa na ponta da língua, por ser inteligente e esperto)
porque não fomos assistir aos shows no TCA, pois o centro da cidade estava em polvorosa com
centenas de hippies que chegaram de Arembepe, da Ilha de Itaparica e de outros estados para
ver o show e o teatro lotado. Com a PM pronta para soltar o cassetete ou a fanta no lombo
dos cabeludos. Marçal acha que foi por não termos grana para o ingresso e também porque a
música de Caetano e Gil eram boas, mas não eram nenhum Rolling Stones, Black Sabbath, Iron
Maiden, Joelho de Porco, Mutantes ou Emmerson, Lake e Palmer. Só ficamos sabendo depois
que teve até hino do Bahia cantado no palco como despedida. E que os caras estavam indo
embora com receio da violência da ditadura militar. Mas, aí já era tarde para conseguir os
ingressos ou entrar de penetra pu entender o que se passava. Mas, depois sacamos tudo. E
fomos ouvir o LP Barra 69. E continuamos a olhar a lua e escutar seu silencia e ver que tiraram
sua paz.


Jolivaldo Freitas jolivaldo.freitas@yahoo.com.br é escritor e jornalista


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade do autor


 
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