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Bruno Lunelli


A morte da Honestidade



A Honestidade acaba de falecer, no leito do serviço público, à face do imponderável, sob o cobertor frio da conjuntura política atual.


Aqui tentamos registrar com a devida honra o inimaginável falecimento do funcionário público da Prefeitura Municipal de Camaçari, o senhor Flavio Gibson, que leva consigo o mais quente suspiro de honestidade que já caminhou pelas terras de Pindorama!


Honestidade hoje parece fora de moda, até sem graça. São os nossos tempos. Na conjuntura política e no seio das intimidades, honestidade parece uma história antiga, um filme em preto e branco. Mas foi num lugar pouco provável (infelizmente) que recentemente encontrei o representante da Honestidade no serviço público.


Tive dois encontros – apenas – com Flavio Gibson, mas foram suficientes para formar uma visão inteira sobre a arte de servir ao público, como um Samurai, sério, sóbrio, um tanto sorumbático, mas possuidor do saber; saber técnico e saber moral. Conversar com Flavio era como tentar ler uma partitura de uma sinfonia de Mozart: breve, com poucas e precisas notas. Mas quem não sabe ler, não pode ouvir a música. É preciso conhecimento para ter a capacidade de absorver o que estava alem das poucas e precisas palavras; mas isso somente para os incautos que não tinham ainda a permissão de absorver o seu conhecimento. Para aqueles que tinham a permissão de atravessar os portões da intimidade, é um bom amigo e brincalhão.


Vou me ater aos dois episódios do nosso prelúdio, que marcaram minha impressão sobre o que poderia vir a ser um verdadeiro funcionário público. Eu ainda não era servidor público, fato que aconteceu algum tempo depois; e estava com um problema um tanto simples, mas me indicaram ele. Não era a sua responsabilidade, mas mesmo assim ele me respondeu de maneira precisa e econômica. Fora suficiente para entender melhor o problema e buscar por mim mesmo a solução adequada. Aquele homem austero e preciso fez o que deveria fazer um servidor público: atendeu sem desculpas, sem se esquivar, com precisão que demonstrava conhecimento sobre o assunto. Alem de tudo isso, me chamou a atenção algo que poderia afastar os desavisados: havia uma contundente impaciência em sua fala. Mas aquela impaciência não era falta de educação, nem rispidez, simplesmente era a impaciência dos gênios; a impaciência dos que sabem muito, dos que caminharam a estrada longa de uma vida inteira e ainda assim precisam estar dispostos, como um guerreiro íntegro, a responder mais um cidadão, que não teve seu problema resolvido, que era um problema simples, mas com certeza alguém não tinha orientado corretamente a solução. Alguém não tinha feito o próprio trabalho. E naquele setor da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, para cada pergunta sem resposta, a frase era: “veja com Flavio Gibson. Ele conhece a cidade como ninguém, ele deve saber.” Era o esteio, a base, o livro sagrado que muitos recorriam. É fato que vários colegas empurravam os problemas para ele, somente pela velha preguiça morosa do mau servidor de pensar. E lá ia ele, mais uma vez, sem cansaço, com a impaciência dos gênios, atender mais um desesperado por solução: eu. Aquela maneira honesta de atender me marcou. A austeridade me marca, mas se vier com soluções... melhor.


É preciso valorizar boas ações e pessoas em meio a tanta exposição de mazelas humanas, de permissividades, vicissitudes; que levam ao medo, que leva a raiva, que leva ao sofrimento.


A segunda vez foi mais interessante. Meu problema era mais complexo e com um agravante: havia um servidor envolvido, tentando atrapalhar, agindo de maneira ilegal, por assim dizer. Não conseguia achar a solução. Mas lembrei daquele homem austero e honesto, de uma sábia impaciência e fui procurá-lo, mesmo sabendo que não era responsabilidade dele a solução do meu problema. A questão era: como resolver tecnicamente meu problema sem expor o caráter daquele mau funcionário? Resolvi arriscar e contei tudo a Flavio. Não sabia que tipo de ligação o mau funcionário tinha com ele, mas algo me dizia que o homem austero não poderia ter pacto com o mau funcionário. Neste momento aconteceu o inesperado! Inesperado porque não se espera condutas ilibadas, honradas, honestas e justas. Estamos tão acostumados com o “jeitinho brasileiro”, principalmente no funcionalismo publico, que fiquei pasmo com o que estava por acontecer. Aquele homem honesto, gigante, levantou-se da cadeira e agigantou-se ainda mais perguntando se o mau funcionário fez o que eu disse que fez. Apenas para ouvir uma segunda vez ou para que eu me preparasse pra cena maravilhosa que eu estava por vir. Flavio disse: “venha comigo”. Segui como um jovem aprendiz pronto a uma nova lição e por aqueles corredores confusos da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, ele foi ao encontro do mau funcionário com a mesma impaciência que havia me recebido no outro encontro. Enquadrou o Mal, vestiu a armadura da Justiça, empunhou a espada da Honestidade e em 20 segundos apertou o mau funcionário que não tinha pra onde ir. O Mal gaguejou, escorregou e ficou com a cara no chão. Flavio saiu da mesma forma que entrou: ileso, com o sentimento do dever cumprido. Sorriu discretamente pra mim e disse umas duas ou três características do dito cujo, no bom e velho estilo “falo a verdade mesmo, doa quem doer”.


Fiquei fã, é claro. E curiosamente, mas com toda razão, o meu problema ganhou asas e solucionou-se como por encanto. Estava ali, à disposição de qualquer gestor, de qualquer entusiasta da natureza humana, a representação da Honestidade. E assim, como quem quer mais, sempre contava esta história para as pessoas e perguntava mais sobre Flavio. A palavra que eu mais ouvia é “honesto” “honesto” “honesto” “honesto” “honesto”.


Mas às vezes eu também ouvia outra palavra que ficou sendo a minha favorita: “difícil”. Difícil era dito depois de algum elogio, como se ser difícil pudesse diminuir a honestidade inabalável. Pois pra mim, “difícil” era o complemento de “honesto”. E sabem por quê? Por que é difícil ser honesto. É difícil falar a verdade. É difícil não se intimidar com o Mal que nos assombra e parece vencer todas as batalhas. Por outro lado, é fácil ser servidor publico. Difícil é ser um bom servidor. Difícil é ser uma ilha de retidão envolvida por toda essa nuvem que nos cega e nos afasta do caminho do Bem. Difícil é não se submeter a suborno; difícil é não abaixar a cabeça para o novo chefe metido a saber tudo a cada quatro anos (ou menos); difícil é não ser um puxa-saco pra obter alguma vantagem. Difícil é saber tudo o que se pode sobre o seu trabalho. Então Flavio Gibson era difícil. E isso era o melhor nele, pelo menos com o pouco que pude ver.


Aqui fica o adeus de um como muitos que pôde ter o prazer de conviver com este ser Honesto, guardião da mais pura essência do serviço publico. Espero que a prefeitura municipal de Camaçari possa homenageá-lo da maneira mais coerente: sendo honesta. Buscando diminuir ate cessar as más práticas dos maus servidores. Espero que a prefeitura comece a valorizar os bons servidores que ainda restam, colocando nos cargos de relevância, porque são competentes e envolvidos com o serviço público. Senhor prefeito, dê cargos aos que merecem por talento e caráter, e não por levantarem bandeiras de partidos que não são maiores que pessoas. Partidos são feitos por pessoas. Mas o serviço público só é eficiente por ter servidores de carreira que são valorizados. Senão, o serviço público é só cabine de trocas, sujeiras e pouca produtividade.  Senhor prefeito, faça um prêmio de valorização de práticas honestas e homenageei Flavio Gibson. É o mínimo que a Administração pode fazer. Porque em vida, ele continuou no subsolo da consideração por parte dos gestores e deveria estar na torre mais alta, transmitindo conhecimento e valores. Para ensinar aos jovens ávidos como é bom ser honesto e principalmente como é bom ser Difícil. 


Bruno Lunelli blunelli@hotmail.com  é escritor, servidor público municipal de Camaçari e membro da Rede Sustentabilidade


 
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