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Carlos Silveira


13 ANOS DE HISTORIA DO MOVIMENTO POPULAR DE CAMAÇARI DE 1977/ 1989 (2)



Em 1979 a CNBB – Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, escolheu o Custo de Vida como o Tema da Campanha da Fraternidade, isto se refletiu aqui em nosso município, onde a Igreja Católica tinha forte vinculação com os pobres, esta orientação repercutiu no Conselho Paroquial, bem como nos Grupos de Jovens e demais Comunidades de Base. Foram programadas discussões sobre como a carestia penalizava a classe trabalhadora e como o custo de vida tinha influencia no dia a dia do povo. Discutíamos estes temas e outros mais como: Inflação, Salário, Carestia, Desemprego, melhores condições de vida, etc.


Dentro deste contexto  surgiu aqui em nosso município o MCC – Movimento Contra a Carestia que já estava organizado em São Paulo - SP e outras localidades do país. Aqui em Camaçari este movimento surgiu dentro das bases da Igreja Católica e também influenciado pelo PC do B, já que nós comunistas, atuávamos dentro das bases da igreja, para fugir a repressão, uma vez que nossa militância política organizada dava-se na condição de clandestinidade. O MCC tinha aqui duas ações concretas: a) Organizar compras coletivas; b) Colher assinaturas para um abaixo assinado nacional que seria levado a Brasília para entregar ao Presidente da Republica – o General Figueiredo.


As compras coletivas aconteciam aos sábados, organizamos um grupo de pessoas interessadas, principalmente mulheres dos Bairros da Lama Preta e Triangulo e alugávamos um ônibus para irmos à  Feira de São Joaquim, onde comprávamos os gêneros hortifrutigranjeiros em uma grande quantidade e repartíamos com todos os participantes. Assim conseguíamos um preço mais baixo e aproveitávamos para nos relacionarmos com aquelas pessoas do povo buscando ajudá-las a compreender que a situação política que vivíamos é que era a responsável pela Carestia e que tínhamos de nos organizar e lutar para mudar aquela situação.


Chegamos a mandar dois ônibus a São Joaquim por sábado ou a cada quinze dias. Um saindo da Lama Preta e outro dos PHOCs. A frente destas compras coletivas destacou-se Dona Maria mãe de Belmiro, Creusa de Flori, minha comadre Maria e o meu compadre Nozinho, eu e Luiza Maia, Agnaldo, Jeová Moura – pai de Geovane e seu Zuzu, a esposa da Bento, moradores da Lama Preta e do Triangulo. Do PHOC II tínhamos Dão e sua esposa,  Melquiades Ramos que depois veio a ser Tesoureiro do PT e Presidente do SINDITICCC e Xavier – vendedor ambulante. Do PHOC I, tínhamos Geraldo do Barracão da Igreja e sua esposa, Dona Maria,  mãe do meu compadre Marcelino. Tínhamos ainda Dona Maria dos 46 – Barracão da Igreja e Dona Maria da Rodoviária, quer dizer Invasão da Rodoviária que hoje é Nova Vitoria.


Estas compras coletivas tiveram grande importância não só pela incidência que tinha no fato de baixar o valor da nossa cesta básica, como pelo fator destas pessoas que iam se conscientizando e tornavam base política desta nova realidade que surgia em nossa cidade a partir daquela quadra da nossa historia.


No Abaixo Assinado de Camaçari, coletamos mais de 10 mil assinaturas pelos bairros populares, missas e feiras.  No mês de outubro viajamos para Brasília, eu, Dona Maria dos 46, Dona Maria da Rodoviária e Benedito que veio mais tarde a ser o primeiro presidente do SINDITICC. Juntamente com os representantes do restante do Brasil chegamos a Capital Federal, levando mais de um milhão de assinaturas colhidas pelo país afora.


Dormimos, mais de uma centena de pessoas, no apartamento do Deputado Federal Aurélio Perez que era um dos lideres nacionais do MCC. No outro dia fomos ao Congresso Nacional, causamos o maior barulho, pois não queriam nos receber, como éramos centenas de pessoas e junto com os apoios parlamentares, percorremos os corredores do Congresso e nos dirigimos ao Palácio do Planalto. Pela primeira vez, durante a Ditadura Militar, os movimentos sociais chegaram às portas do Palácio. Ficamos bem abaixo das escadas e sacadas, os militares nos cercaram e fomos depois de muita confusão colocados em ônibus coletivos e levados até a Rodoviária da Capital.


No entorno do Palácio do Planalto fomos atendidos pelo Carlos Átila – Porta Voz do Presidente da Republica a quem entregamos o abaixo assinado. Durante todo o tempo que ficamos por lá éramos hostilizados por vários  militares “à paisana” que volta e meia nos agrediam com muros e pontapés. Dona Maria dos 46 foi atingida no rosto por um soco desferido pelo Assessor de Imprensa do Palácio, um direitista de nome Alexandre Garcia que hoje é um dos ancoras dos jornais da Globo. Dona Maria,  uma mulher simples, não entendia porque éramos tratados com tanto desprezo.


O MCC foi importante para as futuras lutas populares de nosso município, parte dos seus membros seguiram como lutadores das causas do nosso povo que ia se organizando e em grande parte vieram a ser os primeiros filiados do PT, bem como protagonistas dos Sindicatos de Trabalhadores e das Associações de Moradores.


Carlos Silveira - cabras@contratosc.com.br – é advogado, empresário contábil, ex-secretário municipal e fundador do PT de Camaçari


 
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