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Carlos Silveira


13 ANOS DE HISTÓRIA DO MOVIMENTO POPULAR DE CAMAÇARI DE 1977/1989 (1)




O Movimento Popular em nosso município começa a se organizar pelos idos de 1977, por um lado da Igreja Católica, com os Padres Alberto, Geraldo e Manfredo que ajudavam o povo na sua caminhada, orientados pela Teologia da Libertação. Os Padres ajudavam os jovens católicos a organizarem os Grupos de Jovens e estes grupos discutiam para além das questões religiosas, ou seja, tratavam das questões da atualidade, faziam o que se chama até hoje de trabalho de base da Igreja, em outras palavras faziam a evangelização. No bairro do Alto do Triangulo, onde o Padre Geraldo morava em um Barracão de Madeira, conhecido como “Barracão do Padre Geraldo, havia o Grupo de Jovens do Triangulo e que era liderado pelo jovem operário Belmiro de Araujo Santos, também conhecido até hoje como Mirinho. Belmiro e seus irmãos são de uma família numerosa e proletária, quase todos operários do pólo industrial.
Por outro lado o PC do B – Partido Comunista do Brasil, que naquele momento atuava na clandestinidade, pois vivíamos numa Ditadura Militar, havia menos de um ano que as forças da repressão haviam assassinado vários dirigentes do Comitê Central (PC do B) no Bairro da Lapa, na capital paulista, também já buscava atuar no município. Inicialmente com os professores Abraão Lincoln, Célio Maranhão e este humilde escriba, todos estudantes e ativistas do ME – Movimento Estudantil de Salvador. Éramos ligados ao PC do B, via o ME, por uma corrente de nome “Viração”. Trabalhávamos no Colégio São Tomaz de Cantuária como professores municipais, estudávamos e morávamos em Salvador. Além de sermos professores, nossa tarefa política era buscar disseminar no meio do professorado e dos estudantes o sentimento de luta contra a Ditadura Militar, da luta pela Anistia, pelo não pagamento da Divida Externa, por uma Constituinte, bem como por outras bandeiras políticas daquela época.
Em 1978 houve eleições para o Senado e Câmara Federal, bem como para o Legislativo Estadual, os comunistas apoiavam Rômulo Almeida para Senador, Elquisson Soares para Deputado Federal e Aurélio Miguel para Deputado Estadual, todos do antigo MDB, mais precisamente da sua ala denominada de “Autênticos”. No mês de agosto cinco professores foram demitidos pelo município, pois não aceitamos fazer campanha para os candidatos Rui Barcelar (federal), e Amélio Batista (estadual), ambos da ARENA e que eram os candidatos apoiados pelo Prefeito Humberto Ellery. A Diretora da escola Professora Josefa, por orientação da Secretaria de Educação Joanice Barcelar, divulgou que os professores foram demitidos porque eram todos perigosos Comunistas. Os outros professores em protesto fizeram uma paralisação de três dias e o município cancelou as aulas de outros dois dias, pois o clima na escola estava muito ruim. No meio dos estudantes houve muita insatisfação com a demissão dos cinco professores.
Após as demissões dos professores passamos a fazer campanha eleitoral nas ruas da cidade, chegando no mês de outubro a realizar um comício na Praça Desembargador Montenegro, onde o prefeito mandou apagar as luzes da cidade e fizemos o comício em cima de uma caçamba sob ameaça dos apoiadores de Amélio Batista. Neste comício, dizem que Fernando Capenga chegou a sacar uma arma, mais foi contido. Ao final tivemos de sair da cidade em comboio por medida de segurança. Neste período as entradas da cidade eram vigiadas, todas as vezes que os apoiadores do MDB chegavam, o prefeito e seus seguidores ficavam sabendo e buscavam nos amedrontar.
Neste episodio sentíamos o apoio da população e tínhamos a simpatia dos estudantes. Wilson do Bairro do 2 de Julho era um deles, Romevaldo filho de Dona Gaudência do Cartório, era outro, e de parte do professorado, em especial daqueles que moravam em Salvador e vinham diariamente. Também contávamos com o apoio de pessoas da sociedade como Osvaldo Nogueira, Ariosvaldo (Grande), dentre outros. Os candidatos do MDB tiveram boa votação em Camaçari, inclusive com a eleição do Deputado Federal Elquisson Soares.
Tínhamos a certeza que uma sementinha tinha sido plantada. Como as condições eram favoráveis, a Direção Regional do PC do B – Bahia resolveu iniciar o processo de organização do partido no município, para isto iniciou-se a transferência dos primeiros jovens comunistas que vieram a morar no Bairro da Lama Preta, na Rua Machado de Assis, também conhecida como Tabuleiro da Baiana, que naquela ocasião ainda era uma rua sem nenhuma pavimentação, viemos morar então próximo ao “Faiado”, ou melhor, “Penteio Faiado”. Assim nos localizamos num bairro operário para facilitar o contato com a classe que desejávamos organizar. Era o final de 1978, inicio de 1979.
Através destas duas vertentes, Igreja Católica Progressista e dos militantes orientados pelo PC do B iniciava a politização e organização do Movimento Popular em Camaçari, pós golpe de 1964.



 Carlos Silveira - cabras@contratosc.com.br – é advogado, empresário contábil, ex-secretário municipal e fundador do PT de Camaçari


 
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