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Carlos Silveira


Quando eu ia a pé para Cachoeira, eu e minha Avó Josefina



Minhas historias de menino para minha menina Julia 


Dista Caetité da Fazenda Cachoeira seis léguas, hoje Cachoeira pertence ao município de Igaporã, antes pertencia a minha amada Caetité. Morávamos na Rua Barão de Caetité, próximo da Praça das Arvores, lindos e frondosos jatobás. Minha avó Josefina ficava ansiosa para voltar para sua casa em Cachoeira, pois a cidade lhe dava agonia, queria ela ver seus “bichos” na roça, já era tempo de retornar, Pavão não se acostumava com a cidade.


Saiamos depois do almoço, eu perguntava a ela o nome de todos os lugares, isto marcou, hoje ainda me lembro de quase todos. Passávamos primeiro pelo Rancho Alegre, residência de Carlos Prisco, seguíamos pela BR 030 (neste época sem afasto) até o Brás, onde pendíamos para a direita, deixando a estrada que levava a Guanambi. A partir deste ponto tinha muita areia, o sol quente deixava a areia quase que insuportável, minha Avó com um pano branco amarrado na cabeça volta e meia olhava para trás e dizia, vambora Carrim (Carrim era eu, ela queria dizer carinhosamente Carlinhos) que o trecho é duro, eu ajeitava o boné e seguia enfiando as alpercatas na areia.


No cair da tarde chegávamos as margens da Lagoa de Felix Pereira, ao pé da serra da Gurunga no gerais, pousávamos na casa de Zé Pereira, era uma festa, pois minha avó levava pão comprado na cidade e o povo da roça só comia pão quando vinha alguém da cidade. Eu estava morto de caminhar três longas léguas, logo adormecia, minha avó proseava até mais tarde com os Pereira. Quando o dia amanhecia já estávamos nos serpenteando pelo gerais a subir a serra da Gurunga.


Como aqueles caminhos eram usados pelas pessoas e animais desde o fim do século 19, tinha lugares na serra que os caminhos encobriam as pessoas. O jegue Pavão rifungava, pois ele já sabia que as bruacas iriam bater nos barrancos e isto o incomodava, nesta hora minha avó suspendia a bruaca de um lado e Pavão conseguia vencer o trecho. As pastagens no gerais nesta época estavam ainda verdes, por isto aqui e acolá encontrávamos uma ou outra vaca que iam sendo trazidas da seca para passar o verão no gerais e assim não morrerem de fome. Me impressionava como era que depois os proprietários recolhiam seus animais sem misturar com os demais que usavam também este expediente de levar o gado para pastar no gerais.


Às sete horas estávamos no topo da serra da Gurunga, terra vermelha, neste trecho a população era toda negra, (eram os negros da Gurunga, como os brancos se referiam à aquela gente) naquela descida íngreme habitavam há séculos. Todas as pessoas saudavam minha avó Josefina que dos seus mais de sessenta anos tinha a autoridade de ter criado 22 filhos e agora cuidava dos netos. Logo passávamos pelo São José e avistávamos a Serra do Grama, de onde vinha a límpida água doce que o Rio Cachoeira nos presenteava o ano todo. Um pouco mais a frente passávamos pela Lagoa Queimada, aí eu olhava para ver se a jovem Mercedes estava no terreiro com o seus lindos cabelos negros.


Quando passávamos pelo Carimã e seguíamos o corredor dos umbuzeiros, logo minha avó mudava de feição é como se ela sentisse o cheiro da sua casa, aí estávamos chegando na Cachoeira, seguíamos pelo poço do Lagedão e dávamos com os pés de Piteira (sisal) que circundava o quintal da sede da fazenda Cachoeira. A esta altura eu estava em frangalhos e minha avó começava aprontar o almoço, pois às onze e meia chegavam Tio João e Tio Aguinaldo e já tinha de ter boia pronta.


Me deu uma baita vontade de ir  a pé de Caetité para Cachoeira.


Carlos Silveira cabras@contratosc.com.br é advogado, empresário contábil, fundador do PT de Camaçari e ex- secretário municipal de Cidadania e Inclusão


 
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